Ruwen
Lis segurava uma caneca com força nas mãos e respirou fundo. Mmmmm. Chocolate quente. O cacau podia ser falso, mas o gosto era tão real quanto ela poderia sonhar.
Mas não era o suficiente para encobrir o gosto amargo do trabalho à sua frente. — Não estou com um bom pressentimento sobre isso — ela disse.
— Sobre o quê? — Ruwen perguntou. Seu parceiro tinha optado por algum tipo de bebida nutritiva de vegetais, então, não importava o que ele dissesse, ela não ia confiar no julgamento dele.
— Este trabalho — disse ela, embora precisasse ter cuidado. Renkwist era um velho amigo de Ru. — Este trabalho. Não tenho certeza sobre o cara, ele parecia um… — ela procurou a palavra e Ru esperou. — Canalha — ela finalmente decidiu, com uma leve careta.
Lá se foi a delicadeza.
Mas Ru riu um pouco e deu de ombros. — É, ele é um canalha — disse ele. — Ele também já salvou a minha pele mais de uma vez. Um trabalho como este, de vasculhar uma nave abandonada, exige mais de uma pessoa. Contanto que a gente se mantenha focado e não o deixe nos passar a perna no pagamento, vai dar tudo certo.
Lis não precisava olhar a conta de crédito deles para saber que seria estúpido recusar um trabalho como este. — E como garantimos que ele não nos passe a perna no pagamento?
Ru pensou por um momento, bebericando sua bebida de vegetais sem fazer careta. Lis não sabia como ele conseguia. Ela podia sentir o cheiro do outro lado da mesa. — Garantimos que estejamos em todas as reuniões e concordamos com o valor do pagamento com antecedência. Não o deixamos trazer mais gente pra equipe. E garantimos que temos amigos na Estação Honora que sabem que estamos voltando e quando.
— Então é como planejar um encontro com um cara suspeito?
Seu parceiro rosnou. — Desde quando você anda marcando encontros?
Lis riu, se inclinou sobre a mesa e o beijou, com bebida de cheiro nojento e tudo.
Ru tinha razão, mas mesmo assim ela não conseguia afastar a sensação de que algo ia dar errado. Ela conhecia canalhas em geral, Ru conhecia este especificamente. Mas a oferta era realmente boa demais para recusar.
— Tá bom — disse ela com um suspiro. — Vamos fazer isso. Mas quando nós dois acabarmos drogados e assassinados, eu vou dizer “eu te avisei”.
— Eu não esperaria menos de você — disse ele com toda a solenidade de um juramento. Então sua expressão séria se transformou em um sorriso. — Vai ser uma aventura.
Uma aventura. Certo. Ela já tinha tido umas cem a mais do que qualquer um precisaria nesta vida.
No dia seguinte, eles chegaram às docas bem a tempo de encontrar Renkwist. Ele era difícil de não notar — era alto, mesmo para um Oscaviano, chegando perto dos dois metros e meio. Sua pele era de um roxo vivo e intenso e seu cabelo mudava entre verde e azul, dependendo de como a luz o atingia. Se isso não bastasse, ele usava uma jaqueta azul brilhante que ia até os joelhos.
— Exatamente como eu me lembrava — disse Ru.
— Como diabos você conhece esse cara? — ela murmurou, mas Renkwist já estava ali e uma resposta estava fora de questão.
O companheiro deles correu para diminuir a distância entre eles, com um sorriso largo e contagiante. — Ei! Vocês conseguiram! — Ele abraçou Ru e deu um tapa rápido em suas costas, depois se virou para Lis e a envolveu com os braços em um abraço de urso antes que ela pudesse evitá-lo. Ele a segurou por tempo suficiente para ela considerar usar a violência, antes de soltá-la abruptamente. — Vamos, nossa carona está pronta.
— Ainda não, Kwist — Ru levantou uma mão. — Você sabe que precisamos discutir os termos antes de ir.
Renkwist suspirou, mas deixou Ru fazer o que tinha que fazer. Lis se desligou. Ela ainda era relativamente nova nessa vida e não saberia reconhecer um acordo justo nem que ele a atingisse na cabeça.
Assim que tudo foi resolvido a contento de Ru, com apenas alguns resmungos de Renkwist, eles embarcaram na nave e partiram para o seu destino.
Lis esperava uma longa viagem. Viagens espaciais tinham um jeito de consumir os dias, mas eles mal tinham voado por duas horas quando o alerta de proximidade informou que estavam perto.
Enquanto Renkwist pilotava a nave para a posição correta, Lis e Ru vestiram seus equipamentos de recuperação. Não havia como saber como estaria o suporte de vida na nave e ela não queria descobrir da pior maneira.
A nave atracou nos destroços com um pequeno solavanco e Renkwist se juntou a eles. A missão era dele, e Lis odiava que ele estivesse assumindo a liderança, mas não havia nada que ela pudesse fazer sobre isso agora.
A eclusa de ar abriu com um silvo fraco e eles entraram em um corredor escuro, coberto de destroços.
— O casco parece intacto — ela relatou, olhando as leituras em seu tablet.
— O ar é respirável, mas rarefeito — Ru confirmou com suas próprias leituras.
— Ótimo! — Renkwist se virou e deu um sorriso para ela. — Vamos começar a festa.
Lis ficou tensa, esperando uma traição. Será que Renkwist já tinha gente esperando? Ou ela estava sendo paranoica?
Ela precisava controlar suas emoções. Havia sombras demais para ela agir de outra forma.
— Você se lembra daquela nave que vasculhamos na borda do sistema Orthal? — Renkwist perguntou a Ru.
— Lembro.
— Lembra do cofre?
— Lembro.
— Excelente. — Renkwist parou quando chegaram a uma bifurcação no corredor. — Meu scanner mostra que eles têm o mesmo modelo nos aposentos do capitão. Aposto que tem algumas coisas boas lá dentro. Arrombe-o em menos de duas horas e eu aumento sua parte dos bens no cofre em 10%. Sua garota e eu começaremos a carregar o que pudermos do compartimento de carga.
— Ou eu poderia ir ajudar o Ru — Lis deu um passo na direção dele.
— Só precisa de uma pessoa para arrombar um cofre. Deixe seu namorado cuidar disso. Não vamos estar longe.
Lis fuzilou seu parceiro com o olhar, esperando que ele dissesse algo. Mas ele deu de ombros.
Canalha! Ela queria gritar, para lembrá-lo com quem estavam lidando. Mas ele sabia tão bem quanto ela, e Renkwist estava certo. Eles não estariam longe.
Ela o socaria se ele tentasse alguma coisa.
Lis seguiu Renkwist até o compartimento de carga, tensa e pronta para a traição. Nenhuma veio.
Os caixotes não eram difíceis de mover com os trenós antigravidade que cada um usava, mas eram volumosos. E o suporte de vida de emergência ainda mantinha o sistema de gravidade online, então o peso ainda era um problema.
Lis manobrou um caixote para cima de uma pilha e calculou mal o espaço livre. Ele balançou na beirada e pareceu parar.
Mas isso durou apenas um momento.
Ele balançou e despencou, vindo direto para cima dela. Renkwist se chocou contra o lado dela, jogando-a para longe e quase a nocauteando no processo.
Renkwist se levantou rapidamente e ofereceu a mão para ela.
Lis queria ignorá-lo. Ela ainda não confiava no cara, mesmo que ele tivesse acabado de impedi-la de ser esmagada por um monte de caixas. Como um gesto de agradecimento, ela pegou a mão dele e o deixou puxá-la para cima.
Renkwist a puxou para frente com um tranco e algo afiado picou o lado de seu pescoço. Lis mal percebeu que era um injetor de pressão antes que sua visão turvasse e tudo ficasse preto.
O cômodo estava tão escuro que Lis não percebeu que tinha aberto os olhos, não no início. Então ela viu a menor fresta de luz e respirou aliviada.
Suas mãos não estavam amarradas, então isso era bom. Nada parecia quebrado. Não era a melhor situação, mas ela já tinha estado em piores.
Era a primeira vez que ela era sequestrada por um alienígena babaca.
Lis correu para a fresta de luz e passou os dedos pelas paredes ao lado dela até encontrar um trinco. Sem surpresa, a porta estava trancada.
Droga.
Se ela pudesse ver, talvez conseguisse encontrar uma maneira de neutralizar o mecanismo da tranca. Mas isso era um grande “se”.
Ela tentou se levantar, mas sua cabeça bateu em um teto baixo. Onde quer que estivesse, era minúsculo.
Ela estava na nave abandonada? Ou Renkwist a tinha levado de volta para sua própria nave? O que ele tinha feito com Ru?
O pânico a invadiu e Lis bateu na porta. Se ela ainda estivesse na nave abandonada, talvez Ru a ouvisse e eles pudessem cuidar juntos do babaca que pensava que podia passar a perna neles.
Ela ouviu um som e um momento depois a luz inundou o armário.
Uma mão se estendeu e a puxou para fora. Renkwist.
Ele sorriu cruelmente, mas Lis não perdeu tempo olhando para ele, em vez disso, olhou ao redor. Parecia o mesmo compartimento de carga em que estavam antes.
— O que você está fazendo? — ela exigiu. — Por que você me nocauteou? O que está acontecendo?
Renkwist a arrastou completamente para fora da área de armazenamento antes de encurralá-la em um pequeno canto, bloqueando qualquer rota de fuga. — Tive que fazer o namoradinho correr para te encontrar, não é? Pena que há tantos perigos em uma nave como esta. Acho que ele não vai voltar para você.
Mais pânico. Isso fez seu coração disparar e sua visão se estreitar. Não. Não era possível. Se Ru estivesse morto, ela saberia no fundo de sua alma.
— E você vai me render um bom preço assim que meu comprador chegar. Ele vai tirar esta nave inútil das minhas mãos, e você junto com ela. Seu garoto nunca conseguiu quitar nossa dívida. Mas acho que isso vai resolver.
Dívida?
Lis podia fazer perguntas, mas seus olhos se fixaram em uma grande chave inglesa e, antes que pudesse pensar melhor, ela se lançou para pegá-la e golpeou Renkwist com força.
Ele tentou se esquivar, mas ela acertou seu ombro e o desequilibrou. Ele cambaleou dois passos para trás e Lis aproveitou a vantagem, golpeando novamente como se fosse acertar um home run.
Ela acertou, mas Renkwist era forte e grande. Ele absorveu o golpe e agarrou a chave inglesa, um sorriso selvagem no rosto.
— Ah, eu adoro quando as garotinhas lutam.
Não. Isso não vai continuar.
Lis puxou a chave inglesa, mas o aperto de Renkwist era forte demais para ela dominar. Mas ela não precisava dominá-lo. Não quando ele estava tão empenhado em puxar a ferramenta.
Lis soltou e Renkwist caiu para trás, mas não ficou no chão.
Ela usou a oportunidade para sair do canto em que ele a havia encurralado, mas ainda estava presa no compartimento de carga com um homem com quase o dobro do seu tamanho. Os caixotes estavam empilhados e ela mergulhou atrás de uma fileira deles, esperando se esconder por tempo suficiente para que um plano se formasse.
Ela conseguiria chegar até Ru? Até que tivesse prova absoluta do contrário, ela assumiria que Renkwist estava mentindo. Mas ela não conseguia ver a porta e Renkwist poderia realmente conhecer o layout desta nave.
O que ela podia…
Ah. Bem.
Isso servia.
Renkwist havia tirado suas armas depois de nocauteá-la, mas sua faca e seu blaster estavam em cima de uma mesa no final da fileira de caixotes.
Lis correu para pegá-los antes que ele pudesse se lembrar que estavam lá.
Ela fechou a mão em torno do blaster exatamente quando Renkwist rugiu e avançou contra ela. Lis disparou um tiro após o outro. O alienígena corpulento gemeu e caiu no chão, convulsionando enquanto os choques elétricos percorriam seu corpo.
Lis recuou contra um caixote e respirou fundo. Se ela afrouxasse o aperto em seu blaster, suas mãos tremeriam. Então ela não soltou. Renkwist não se levantaria tão cedo, mas ela não ia correr riscos.
— Lis? Kwist? Vocês estão aqui? — A voz de Ru foi música para seus ouvidos e o resto da tensão em seus ombros se desfez.
— Aqui atrás! — Lis gritou.
Um minuto depois, Ru dobrou a esquina e congelou quando viu Renkwist.
— O que aconteceu? — ele perguntou.
— Eu te disse que ele era um canalha. — Ela finalmente abaixou o blaster antes de guardá-lo no coldre vazio de seu traje. — Ele me nocauteou e disse que ia me vender para um comprador que está vindo. Ele disse que te matou.
Ru rosnou e se aproximou de Renkwist, mas se estava planejando algo, ele se conteve.
— Ele disse que você tinha uma dívida com ele. O que era?
Com isso, Ru riu. — Esse desgraçado pensaria isso. Eu disse para a ex dele que ele a estava traindo e ela o largou.
— Canalha.
— Exatamente.
— Foi você quem disse que deveríamos aceitar este trabalho — ela o lembrou.
— Ok, eu não esperava isso. E estou pensando que precisamos descobrir o que fazer com ele.
Lis olhou para o alienígena caído e considerou suas opções. — Ele tem um comprador vindo. Eu digo para pegarmos a nave e deixá-lo aqui. Ele que limpe a própria bagunça.
— Poderíamos denunciar o ataque à segurança da estação quando voltarmos para casa — ele ofereceu.
Lis balançou a cabeça. — Quero acabar logo com isso. Vamos sair daqui.
Ru levantou uma mão. — Vamos esvaziar o cofre primeiro. Eu consegui abri-lo.
— Sério?
— Era isso que eu estava vindo te contar. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo aqui. Não faz nem duas horas que nos separamos. — Seu sorriso se alargou. — Há uma pilha enorme de chips de crédito lá dentro. Não adianta deixá-los para este canalha.
Lis contornou Renkwist e passou o braço pelo de Ru enquanto saíam do compartimento de carga. — Ok, talvez este não tenha sido um trabalho tão ruim.
— Você deveria confiar em mim.
— Eu confio em você. Mas vamos embora antes que os caras ainda piores cheguem. Tenho planos para você em casa.
Tyral
Dorsey não se lembrava da última vez em que se sentira tão relaxada. A viagem até a Estação Honora durara quase um mês, e nesse tempo ela transou com Ty mais vezes do que conseguia contar — e aprendeu tudo o que pôde sobre ele.
Ainda havia tanto para descobrir. Sempre haveria. Essa era a melhor parte de estarem juntos: crescer, se transformar, dividir tudo com quem se ama.
Bom, isso… e o sexo alucinante.
Mesmo tendo pegado carona com os Oscavianos, ninguém na nave do embaixador foi simpático. Eram educados até demais, frios como gelo. Dorsey tinha certeza de que a tripulação comemorou quando ela e Ty desembarcaram. Intriga imperial devia ser muito mais interessante do que dois fugitivos de quinta categoria.
Já fazia três dias desde que chegaram a Honora, e ainda faltavam mais três até o cruzeiro para Jaaxis. Dorsey sabia que Ty ia enlouquecer se ela perguntasse mais uma vez se os pais dele iam gostar dela, ou se se importariam com o fato de ela ser humana. Mas a paranoia bateu de novo — claro que bateu. Então, ela escapou do quarto, pegou o primeiro corredor e foi andando até o mercado.
Mercados em estações espaciais eram sempre um choque para os sentidos — gente de todas as espécies, cores, formatos, cheiros. Tão longe de casa, humanos eram uma raridade. Pelos padrões galácticos, a Terra ainda era um fim de universo, longe das rotas comerciais principais.
Talvez por isso, um arquejo de surpresa escapou de seus lábios quando Dorsey viu uma mulher claramente humana, de macacão escuro, de mãos dadas com um alienígena desconhecido de pele amarelo-esverdeada.
Um Detyen, desconhecido.
— Caramba — sussurrou.
A mulher a viu e abriu um sorriso largo. Ficou na ponta dos pés e beijou o rosto de seu companheiro — não, não um simples companheiro, talvez o denya dela — e veio direto na direção de Dorsey. Era baixinha, com cabelos castanhos pelos ombros e uma felicidade estampada no rosto.
A mulher acenou quando se aproximou e falou assim que chegaram cara a cara:
— Oi! Eu sou a Lis. Espero não estar sendo esquisita demais, mas quase não vejo gente nossa por aqui, então é ótimo encontrar um rosto familiar.
Ela falava inglês. Dorsey não ouvia alguém falando inglês fazia quase cinco anos.
— Você é da Terra? — perguntou, e só então se lembrou de se apresentar. — Eu sou a Dorsey.
— De onde mais eu seria? — Lis riu. Antes que Dorsey pudesse responder, Lis se virou para o Detyen, que viera junto, mas ainda estava longe demais para conversar direito.
— Eu disse para esperar um segundo, Ruwen NaNaran. Sério! — Ela acenou para que ele se afastasse e voltou para Dorsey. — Meu denya está tentando me lembrar que a gente tem um compromisso no almoço.
Os olhos de Dorsey se arregalaram.
— Seu denya? — Não era só ela? Ela e Ty nunca tinham tido coragem de admitir, nem entre si, que talvez ela fosse a única humana denya que existia. Mas essa mulher, Lis, estava ali para provar o contrário.
— Ah… — Lis entendeu de outro jeito. — Você quer dizer que ele é…
— Seu parceiro — disseram ela e o Detyen, Ruwen, juntos. Ele apareceu logo atrás de Lis e a envolveu nos braços.
— E eu estou com fome.
Lis analisava Dorsey agora com um olhar atento.
— Você já conheceu outros Detyens? — perguntou.
— Ah, querida, não incomode a…
Lis levantou o braço para tapar a boca dele. Acertou seu nariz, mas cobriu só metade da boca. Funcionou do mesmo jeito; ele se calou.
— Já conheceu?
— Você não vai acreditar — disse Dorsey, sentindo a emoção transbordar, explodindo dentro dela. — Eu mal estou acreditando. Mas meu denya, o Tyral, está lá no nosso quarto. — Ela quase quis abraçar Lis e Ruwen juntos. Aquilo era incrível.
Lis e seu denya ficaram olhando para ela de boca aberta, os olhos arregalados de surpresa. Ruwen foi o primeiro a se recompor — e abriu um sorriso satisfeito.
— Jantem com a gente hoje, no Starlighter, no quarto deck.
Dorsey topou na hora e queria conversar por horas, mas Lis e Ruwen tinham que correr para o almoço. Ela voltou para o quarto quase correndo, tropeçando no teclado da porta, o peito arfando, o suor na testa. Antes que conseguisse destravar, Ty abriu, e ela quase caiu em seus braços — o único lugar onde fazia sentido estar.
Ele a segurou forte, e todo o medo sobre a família dele se dissolveu ali mesmo, naqueles braços. Ficar longe dele parecia errado, como se faltasse um pedaço dela. Todo reencontro virava motivo para comemorar.
— Eu não sou a única — ela falou, quase gritando.
— O quê? — Ty fechou a porta atrás dela, mas os dois continuaram grudados. — A única o quê?
Dorsey puxou o ar, uma, duas vezes. As palavras quase escaparam, mas ela precisava se segurar. Depois da terceira respirada, finalmente conseguiu:
— Conheci uma humana. Ela é parceira de um Detyen. Eles nos convidaram para jantar.
Ty ficou congelado por um segundo, depois puxou Dorsey para um abraço esmagador e, só então, recuou, pegou-a no colo e rodopiou, soltando um grito de comemoração. Seus olhos rubis brilhavam, e o sorriso quase partia seu rosto.
— Você é um milagre — disse ele, quando a colocou de volta no chão.
— Mas não sou só eu — protestou Dorsey. — Esse é que é o milagre. — Claro que isso não ia salvar todo mundo; aquela pontada sóbria cutucava o fundo de sua mente desde sempre. Mas saber que Lis e Ruwen existiam dava esperança. Não era só acaso. Talvez houvesse algo especial nela e em Lis, mas isso queria dizer que poderiam existir outras humanas especiais por aí também. E, quem sabe, homens humanos. As mulheres Detyen sofriam a Maldição tanto quanto os homens.
Ty puxou lentamente o laço da roupa dela, expondo seu pescoço e a curva do peito, revelando o zíper que mantinha o resto fechado.
— Acho que isso merece uma celebração — murmurou ele, inclinando-se para cobrir o pescoço dela com os lábios, justamente no ponto que fazia Dorsey se arrepiar inteira.
Ela envolveu os braços ao redor dele, arqueou o corpo e se entregou ao calor daquele abraço.
— Temos tempo — gemeu ela, quando ele a beijou de novo. — O jantar é só daqui a algumas horas.
Ela sentiu o sorriso de Ty contra sua pele, quente e possessivo.
— Duvido que eles se importem se a gente se atrasar um pouco.
Stoan
Reina olhou para a laje dura encostada na parede dos antigos aposentos de Stoan com uma mistura de desconfiança e resignação. Ele jurava que aquilo era um colchão, mas ela sabia bem a verdade. Uma noite naquele instrumento de tortura já tinha sido suficiente para ela ameaçar voltar pra casa. Dormir no chão era melhor do que naquela… coisa.
— O que você está aprontando? — Stoan perguntou ao entrar no quarto e pegar um livro que havia deixado sobre a mesa.
— Você acha que isso pega fogo? — ela retrucou. Ainda não conseguia acreditar que ele tinha dormido ali por anos. Até prisioneiro em campo de trabalho tinha cama melhor.
Stoan passou um braço nos ombros dela e lhe deu um beijo rápido. Eles ainda se adaptavam aos novos aposentos dele, mas resolveram transformar o antigo em escritório, onde Stoan podia cuidar de boa parte dos assuntos da comunidade Detyen em Nina City.
— Por que você quer queimar minha cama velha? — ele brincou, como se não soubesse que aquela coisa era quase uma arma de tortura. — A gente pode colocar ela no quarto de hóspedes, assim as visitas não precisam dormir no sofá.
Reina riu, imaginando a expressão de qualquer um ao tentar dormir naquele troço. Não desejaria aquilo nem ao pior inimigo. Bom… pensando melhor, se ela conseguisse trancar Droscus em algum lugar, ia fazer questão de deixar só aquele catre horroroso pra ele.
— Nem é tão ruim assim — insistiu Stoan.
Ela apontou para a nuca.
— Até agora tenho um caroço aqui, graças àquele travesseiro horrível. Aposto que você tramou algum plano maligno com essa combinação, só não descobri qual ainda.
No dia seguinte à mudança, ela arrastou Stoan até o mercado para comprar uma cama decente e roupas de cama novas, depois que ele reclamou só de imaginar dormir na cama que ela tinha dividido com o marido falecido. Agora eles tinham um espaço enorme, macio e confortável, perfeito para dormir. Mas só o fato daquele catre ainda existir ofendia Reina profundamente.
As mãos de Stoan subiram até os ombros dela, massageando o ponto tenso que ela tinha mostrado.
— Se queria que eu aliviasse sua dor, era só pedir — ele murmurou.
Os olhos de Reina se fecharam devagar enquanto ela se encostava nele, aproveitando o prazer das mãos dele, algo que ela aprendeu a amar quase tanto quanto a língua dele.
— Se um dia quiser uma profissão nova, acho que ganharia uma fortuna fazendo isso — provocou com um sorriso.
Ele riu baixinho, roçando o peito nas costas dela.
— Minhas mãos são só suas, denya — sussurrou, beijando o pescoço dela exatamente onde havia marcado e reivindicado Reina como sua.
Com o desejo acendendo em seu sangue, Reina resolveu que talvez aquele catre ainda tivesse alguma utilidade, enquanto ela e seu companheiro se deitavam juntos para dar mais uma chance a ele.
Cyborg
Depois de uma semana na Estação Honora, Inrit tinha uma pergunta entalada para Max.
— Como, pelo amor de todos os infernos, você aguentou tanto tempo na Estação Nina sem enlouquecer?
Dessa vez, eles tinham alugado um quarto nos alojamentos temporários—e se deram ao luxo de escolher um com uma janela de verdade, voltada direto pro espaço. No começo, aquele vazio imenso a hipnotizava; passava cada intervalo possível espiando o campo estrelado, negro feito tinta fresca. Só que, depois de uma semana inteira encurralada no mesmo cenário, o preto cobrava seu preço. Sufocava.
Sentada na cama que agora era deles, Inrit puxou o cobertor grosso até se enterrar, na tentativa de espantar o friozinho que insistia em se infiltrar no quarto. Por mais que tivessem um sistema de regulação térmica bem avançado, nunca conseguiam chegar num acordo sobre a tal temperatura “ideal”. Naquela noite, Max estava no comando do termostato.
Max se encaixava nos pés da cama, camisa largada em algum canto do chão. O olhar de Inrit grudou nele. Cada centímetro do corpo dele já tinha passado pelo toque — e pelo gosto — das mãos dela; aquela musculatura larga e quente estava gravada na pele dela como uma marca. Duas vezes só naquela noite.
Inrit se inclinou, encostando a bochecha na pele absurdamente quente de Max.
Ele soltou um ruído satisfeito e devolveu o gesto com um sorriso de canto, meio debochado.
— Isso aí é carinho? Ou você só quer roubar todo o meu calor? — provocou, os olhos brilhando naquele tom prateado.
Ele encostou um beijo breve na testa dela, sem nenhuma pressa em se afastar.
— Por que não os dois? — murmurou Inrit. Antes de Max, ela não fazia ideia de que um toque simples podia trazer tanta paz, como se a cada contato os monstros da mente recuassem. Agora, vivia arrumando desculpas pra deixar os dedos explorarem a pele dele, absorvendo cada sensação; a boca deslizou pela curva do ombro largo de Max, e uma mão escapou de debaixo do cobertor pra vasculhar o peito dele.
Max se recostou nela, mas segurou o pulso de Inrit antes que ela decidisse avançar demais.
— A gente prometeu que ia se despedir dos meninos, lembra? — lembrou ele, seco.
— Eu sei — resmungou ela, a voz abafada contra a pele quente dele, os lábios esmagados no calor. Se dar distância era difícil, não era só pelo frio. Mas Inrit não era de fraquejar fácil; empurrou-se de volta, largou o cobertor e saltou da cama de gatinhas. Manteve o olhar fixo no armário, porque era só encarar de novo o olhar prateado de Max e pronto, não iam sair dali nunca mais.
Mesmo assim, meia hora depois lá estavam: no terminal de voos de longa distância, trocando abraços e contatos com Krayter e Kayleb. Kayleb já estava quase recuperado dos ferimentos; restava só uma cicatriz meio rosada na têmpora, e o novo hábito de mergulhar em silêncios longos demais. O médico da estação tinha garantido: ele ia melhorar… uma hora.
Inrit torcia, sinceramente, pra essa hora não demorar.
— Já perdeu a esperança do seu primo aparecer? — provocou ela.
Viajantes passavam apressados ao redor, e Inrit agradeceu por terem encontrado um canto menos sufocado pra despedida. Multidão nunca foi o forte dela.
Krayter varreu o mar de gente com um olhar antes de dar de ombros e voltar pra eles.
— Esse é o último transporte direto pra Terra num mês. Ru avisou: se o horário não bater, é pra ir sem eles. Então… é agora ou nunca.
Nenhum dos Detyens estava feliz com isso.
— Se quiserem, a gente pode avisar logo que chegarem — sugeriu Max, a mão tombada casualmente no ombro de Inrit, que logo se aninhou nele. — Se eles aparecerem, vão saber que vocês embarcaram em segurança.
Kayleb apenas assentiu; ficou quieto. Quando tinham se conhecido, era pura casca grossa. Agora, tinha construído outro tipo de muralha: o silêncio. Inrit só esperava que, quando a represa estourasse, não arrastasse ele de vez.
— Obrigado — disse Krayter. — Deve ter um motivo simples pro atraso deles. Alguma parada boba, só pode.
Mas a preocupação estava ali, costurando cada sílaba; a testa franzida não convencia ninguém. Inrit conhecia bem esse medo. Depois que piratas entraram no caminho deles, era difícil fantasiar explicações inocentes pra atraso.
Uma voz surgiu no interfone, chamando os passageiros para embarque. Krayter e Kayleb apanharam as bagagens.
— Espero que encontrem o que procuram na Terra — desejou Inrit. — E, quando acharem, mandem notícias. Entendido?
Não fazia nem um mês que tinham se conhecido, mas os meninos já eram família.
— Entendido — respondeu Kayleb, simples.
Abraçaram Inrit, um de cada vez, e então entraram na fila de embarque, deixando só Max e ela.
— Você já quis ver a Terra? — perguntou ela a Max. Nunca tinha pisado lá, mas vira imagens, vídeos — oceanos imensos, florestas insanas, desertos de perder de vista. Um planeta que sobreviveu ao pior dos humanos e ainda florescia. Pensar nisso enchia o peito de Inrit de um nó. O povo de Max vinha da Terra. Ela… nunca mais veria Detya.
Max ficou em silêncio um bom tempo. Olhava por cima das cabeças da multidão, mas não via ninguém.
— Talvez um dia — falou, por fim. — Principalmente se aqueles dois arranjarem parceiras e exigirem visita.
— Tá muito confiante de que vai acontecer, hein? — provocou ela, leve. Krayter e Kayleb nunca abriram a idade exata, mas pelo jeito estavam beirando os trinta.
Ele deu um beijo rápido no topo da cabeça dela.
— A gente se encontrou, não foi?
O calor dentro de Inrit subiu como uma explosão, e ela teve vontade de agarrar Max pela gola e arrastá-lo de volta pro quarto. Mas já tinha feito isso duas vezes na semana; se continuasse assim, nunca sairiam da Estação Honora. Então ela se contentou com um beijo e um sorriso de canto ao se afastar.
— Encontramos.
Max entrelaçou os dedos nos dela, guiando-a para longe do terminal.
— Já pensou no que quer fazer quando sair daqui? — jogou ele, casual.
Inrit tinha deixado esse pensamento girando num canto obscuro da mente o tempo todo. A Estação Honora era puro sonho, flutuando longe de qualquer vida real. Mas sonho tem prazo de validade. Com Max por perto, o futuro não ameaçava tanto. Mesmo assim, ela não tinha pressa nenhuma de correr na direção dele.
— Sabe que eu gosto da ideia de procurar um planeta precisando de gente. Mas já faz tanto tempo que não vivo num mundo de verdade…
Deixou Max conduzir, sem se importar com o caminho. Ter um parceiro, um companheiro de verdade, significava isso: alguém em quem confiar de olhos fechados—que ia cobrir suas costas tanto quanto ela cobria as dele. Andaram vários minutos, ainda próximos dos portões de saída da estação.
— Pra onde você tá me levando? — perguntou ela, franzindo a testa.
— Tive uma ideia. Não precisa responder agora—nem sim, nem não — disse Max, empurrando-a suavemente por uma porta. Ela deslizou e se fechou atrás deles. As luzes se acenderam sozinhas. O cômodo era quase do tamanho de um armário. Só tinha uma coisa ali que importava: uma janela colossal, com vista direta para o vazio do espaço.
Do lado de fora, flutuando colada à estrutura da estação, estava um croiseur pequeno e surrado, visivelmente no fim da linha. O casco era remendado com placas de metal de todas as cores: azul gritante, rosa berrante, amarelo desbotado. Era, oficialmente, a nave mais feia que Inrit já tinha visto em toda a vida.
Ela se apaixonou na hora.
— Por acaso tem uma capitã procurando tripulação? — perguntou, cutucando Max com o cotovelo e lançando um olhar animado por cima do ombro. Sem perceber, os dedos já estavam colados no vidro.
Max correspondeu ao sorriso.
— Poderia ter. Se você quiser.
O coração de Inrit deu um salto, e um punho invisível se fechou no peito, como se ela pudesse arrebentar o vidro e agarrar a nave pela força da vontade.
— Até um trambolho desses deve custar mais créditos do que já vi na vida.
Max tossiu, sem graça. Um rubor subiu pelas bochechas, pouco discreto.
— Tenho um punhado de ametistas tarnianas — admitiu, na maior tranquilidade possível. — Dá pra comprar essa nave dez vezes, e ainda sobra crédito.
Inrit largou o vidro e girou para encará-lo.
— O quê? Ametista tarniana era tesouro da galáxia. E Max do nada…?
— Pretendia contar quando, que era rico? — provocou, com a sobrancelha erguida.
— O que é meu é seu, denya.
Max pousou as mãos nos ombros de Inrit e virou-a de novo para a janela. As mãos deslizaram até a cintura dela e ele se apoiou, tranquilo, com o queixo no ombro dela.
— Você, eu e a galáxia. Que tal? — sussurrou, roçando os lábios na pele sensível do pescoço dela.
Inrit ficou olhando para a nave, deixou o calor forte dos braços de Max injetar vida em cada centímetro do seu corpo. Encostou a cabeça de lado, se aconchegando nele, e sorriu.
— Acho que isso me parece perfeito.
Krayter
— Mas olha o acabamento verde nessa aqui — Krayter atravessou o pátio aos saltos até onde o holoprojetor exibia o último modelo de esportiva.
Seu companheiro talvez estivesse apreciando a pintura, mas Penny estava de olho na etiqueta de preço. — Quando você ia me contar que era um bilionário secreto? — ela perguntou com um sorriso.
Seu companheiro tinha um jeito de sorrir que fazia seu coração acelerar e dizia tudo sobre a quantidade de encrenca que ele era capaz de arrumar — algo que ela conhecia muito bem por experiência própria. — Eles oferecem financiamento — disse ele, como se isso fosse convencê-la.
— Tenho quase certeza de que a gente teria que vender as minhas duas irmãs e os seus irmãos pra nem chegar perto de uma entrada. — Ela se aproximou enquanto falava e teve que admitir que a máquina era bonita. Elegante e lisa, praticamente chamava para ser tocada, mesmo sendo só um holograma.
— Ooh, vocês estão olhando para a Hornet. É uma nave incrível, especialmente para famílias novas! — Uma voz adocicada veio de trás, e Penny se virou num estalo para ver uma androida com um cabelo rosa estranhamente penteado e um sorriso fixo e forçado se aproximando. De longe, Penny talvez tivesse confundido a máquina com uma pessoa, mas de perto havia algo perturbadoramente errado nela.
— Eu não sou— — Penny tentou dizer, mas Krayter falou por cima.
— Podemos fazer um test drive? — perguntou Krayter. Ele lançou a ela um olhar que dizia para confiar nele.
Bom, eles tinham sobrevivido até aqui, e no momento ninguém estava atirando neles.
Além do mais, Penny realmente queria ver o interior da nave.
— Claro! — A androida exclamou, toda efusiva. — Só preciso da sua carteira de motorista e do comprovante de seguro.
Os olhos de Krayter se arregalaram. — Hm…
Penny enfiou a mão no bolso e tirou sua documentação. — Aqui tá tudo certo. Eu levo ela pra dar uma volta.
Eles seguiram a androida até o hangar, e Krayter se inclinou para sussurrar no ouvido de Penny. — Não era assim que era pra funcionar.
Ela sorriu de baixo para cima para ele. — Eu disse pra você resolver logo a sua papelada. Quem sabe da próxima vez você faz o test drive.
Não havia a menor chance de conseguirem uma nave que custava mais ou menos o preço de uma pequena lua, mas enquanto Penny se sentava no cockpit e acionava os controles, ela pensou que sonhar não custava nada.
Raze
Uma semana. Quanto tempo poderia ser? Quando eles tinham embarcado na nave três dias atrás, Sierra sabia que aquilo era praticamente nada. Ela tinha tirado férias que passavam num piscar de olhos e que duravam uma semana. Além do mais, ela tinha o homem mais sexy da galáxia ao seu lado, e cada momento que conseguissem roubar juntos faria aquele tempo passar ainda mais rápido.
Exceto que esses momentos não eram nem de perto tão frequentes quanto ela precisava, e a frustração a dilacerava a cada pingo de atenção extra que sua equipe, a nave ou as mulheres exigiam. Claramente ninguém se importava que ela e Raze eram recém-unidos e poderiam ter passado felizes todo o tempo em seus aposentos até chegarem à Terra.
Mas depois daquele primeiro dia, ficou claro que ninguém ia deixá-los se safar com isso.
Primeiro, Quinn a puxou de lado para avisar que as mulheres estavam entediadas e precisavam de entretenimento. Depois, Jo quis que ela confirmasse se toda a comida na nave era comestível. E então Toran, Kayde e Dryce tinham levado Raze para fazerem coisas de Detyen e um dia inteiro tinha passado com apenas um beijo compartilhado entre eles.
Ela ia usar todas as suas férias pra passar com Raze assim que chegassem em casa. Isto é, se ela ainda tivesse um emprego. Outro problema com essa semana interminável: toda vez que ela parava de se mexer e não estava perto de Raze, começava a pensar em exatamente quais eram as perspectivas de emprego para uma espiã em desgraça.
É, isso também não parecia bom. Talvez ela não devesse estar desejando que a semana terminasse.
Mas foi o tédio das mulheres que a trouxe para esta noite torturante. E ela não faria isso sozinha.
— É um jogo humano? — perguntou Raze. Ela o encurralara num armário de utilidades e, depois de um amasso rápido que só serviu para deixá-la frustrada e excitada, ela tinha contado o plano para ele.
— Sim, deve manter as mulheres ocupadas por um tempo. E não é como se a gente precisasse de cartas ou coisa assim. Vai ser divertido.
Mentir pro seu companheiro era um pecado terrível, mas algumas coisas eram simplesmente necessárias.
— E consiste apenas em fazer perguntas e lançar desafios? — Ele pareceu intrigado.
Ótimo, pelo menos um interessado. Ela pegou a mão de Raze e o arrastou para a cozinha, onde algumas das mulheres tinham se reunido.
— Ótimo.
Quinn, Davy, Monica, Muir e CJ estavam sentadas ao redor de uma mesa grande e se mexeram para dar espaço quando Sierra e Raze chegaram. Tanto Quinn quanto Davy lhes lançaram sorrisos cúmplices, como se soubessem exatamente o que Raze e Sierra prefeririam estar fazendo. Sierra mal conseguiu evitar levar a mão à cabeça para checar se o cabelo não estava completamente despenteado pelo tempo no armário.
— Esse é o nosso grupo? — perguntou ela.
Muir acenou com a cabeça. Nos últimos dias ela se abrira um pouco, agora que tinha certeza de que não ia morrer. — Valerie disse que o resto não queria jogar.
Com vocês foi a parte não dita. Aquela tensão não tinha se dissipado e Sierra duvidava que perdoaria Valerie por ter abandonado Laurel.
— É um bom número. Com muitas mais, ninguém teria vez de jogar. — A divisão entre as duas facções de sobreviventes e a tripulação humana e Detyen não era algo que pudesse ser consertado, mas pelo menos todas se separariam em alguns dias. — Vamos só seguir a ordem alfabética? CJ, você pode começar.
Os olhos dela brilharam e seu olhar mirou Raze imediatamente. — Verdade ou desafio? — perguntou a ele.
Raze olhou para Sierra e ela acenou com a cabeça, encorajadora. Ele tinha concordado, afinal.
— Verdade — decidiu ele.
CJ não esfregou as mãos de contentamento, mas quase.
— Se você tivesse que dormir com alguém na nave que não fosse a Sierra, quem seria?
Sierra gemeu. Verdade ou desafio era um jogo terrível, por que ela tinha escolhido isso?
Raze balançou a cabeça. — Eu não teria relações com ninguém além da minha denya.
Suas bochechas arderam, mas ela estendeu a mão e entrelaçou as mãos deles sob a mesa.
CJ estava balançando a cabeça.
— Não, não é assim que funciona. Você tem que responder. Finja que, se não escolher, sua cabeça explodiria.
— Então eu deixaria minha cabeça explodir em vez de traí-la.
Ele era tão sincero que Sierra não pôde evitar dar um sorriso bobo pra ele.
Ela lançou um olhar furioso a CJ e a mulher entendeu a mensagem. — Davy?
Um brilho maligno apareceu nos olhos de Davy. — Sierra, verdade ou desafio.
Pior. Ideia. De todas. Mas Sierra não ia cair na armadilha da verdade. — Desafio — decidiu ela.
— Eu te desafio a ficar pelo resto desse jogo sem tocar no Raze — Davy sorriu.
Sierra lançou um olhar furioso, mas tirou a mão de seu companheiro e se afastou um pouco para o lado. — Fácil — respondeu ela. — Monica?
Ela e Raze já tinham sido escolhidos, Monica não voltaria para eles, certo?
Errado.
— Raze, verdade ou desafio?
Isso estava ficando ridículo.
Seu companheiro suspirou, mas não recuou. — Desafio.
Monica mordeu o lábio enquanto pensava em seu desafio, e então sorriu tão malignamente quanto Davy. — Meu desafio é você fazer a Sierra tocar em você, mesmo que ela não deva.
— Que idade vocês têm? — Sierra perguntou ao grupo antes de se virar para Raze e cruzar os braços. — Nunca vai acontecer.
Ela queria vencer esse jogo idiota.
Mas ela podia ver nos olhos de Raze que ele tinha entrado no desafio. Ele se inclinou sobre ela, invadindo seu espaço, mas sem tocá-la em nenhum ponto. O espaço entre eles esquentou e havia uma atração quase física entre eles. Sierra teve que cerrar os punhos no apoio de braço da cadeira para não estender a mão e colocar uma palma em seu peito.
— Você tem ideia do que eu vou fazer com você mais tarde? — perguntou Raze, sussurrando em seu ouvido baixo demais para as outras mulheres ouvirem.
— O quê? — Ela se inclinou mais perto, mas ainda não perto o suficiente para tocar, quase.
— O que você quiser — ele prometeu, malícia nos olhos. — Tudo que você tem que fazer é estender a mão e pedir.
— E se eu não fizer? — Ela estava tensa como uma corda de violino, todo o corpo teso.
— Você não quer descobrir — ele advertiu.
Ela se inclinou para frente, só um pouco mais, só tentando absorver mais do calor dele, e sua bochecha roçou na dele.
Uma comemoração ecoou atrás deles, Davy erguendo as duas mãos no ar. Sierra se afastou com um sobressalto e lançou um olhar furioso. Cruzou os braços de novo e tentou manter espaço entre ela e Raze, mas ele jogou um braço sobre seus ombros.
Ninguém disse que ele não podia tocá-la. Ha! Lacuna.
Mas pelo brilho malicioso no olhar de Muir quando chegou a vez dela, Sierra sabia que ia ser uma noite longa.
Mais quatro dias. E então essa maldita semana terminaria e ela poderia realmente aproveitar o companheiro dela.